Vão
Sobre o vão entre esperar vindas e se desfazer de idas
Às vezes parece que vem devagar, como uma planta que nasce no quintal e a gente adota na empatia pela vida que cresce resiliente no cimento. Daí a gente esquece de regar, ou a planta não suporta o espaço, porque, enfim, às vezes a gente não tem vaso pra ela ué, ela que quis crescer ali, e começa a morrer, sem mais nem menos; mas a gente pouco vai vendo que vai se desfazendo e vai deixando, como se fosse bonito ver o ir. E às vezes é mesmo. E outra, tem planta que a gente coloca no vaso e ela morre sabe-se lá porquê. às vezes dá preguiça, melhor não mexer muito né, vai que ela vinga, sei lá como.
Às vezes vem como trem. Vai dando um tremor lá de fundo. A gente olha pro horizonte e sabe que vem um trem grande. As pessoas em volta vão se levantando na preparativa de uma partida. O som cada vez mais alto. Tremendo o chão. E invade a cena numa velocidade e dissolução do espaço, cortando o ar, que parece ser fácil mover centenas de toneladas de histórias carregadas em uma única locomotiva. Mas ela passa reto. daí a gente se dá conta: ah sim, só carrega troço essa. A gente senta e espera. e espera. Se distrai e vê outra planta crescendo no cimento, e como quem não tem nada pra fazer, vai regar enquanto espera. Esquece que espera e de repente perde um trem que já tava ali na plataforma e a gente nem viu, já foi embora. porra, pra que fui regar essa planta perdida aqui no meio do nada, agora vou chegar é atrasado. Outro trem passa, mas esse vai pra longe demais, não se sabe bem se vale se arriscar tanto assim. É uma pena, seria uma boa viagem.
Mas quando nosso trem chega mesmo, a gente tá ali, sentado, já descrente do horário. A gente olha pro lado e o trem parado, como se tivesse esperando o passageiro acordar do devaneio de nem ter ouvido ele chegar. A gente entra desconfiado do destino, pensando uai. O ar tá confortável e tem muito espaço pra explorar de um vagão pra outro. Tem lugar pra sentar onde quiser, daí dá até pra apreciar a cidade com a agulha girando na bússola. O maquinista, no som, agradece pela preferência e deseja uma boa viagem. eu agradeço também e coloco o fone.
não gosto de abuso de comparação, mas que a vida é um trem, do jeito bem mineiro de ser mesmo, isso é. muita espera e umas toneladas. mas dá pra ouvir música enquanto passa. e a voz do maquinista de vez em quando só pra gente não esquecer que essa locomotiva segue nos trilhos.
Vendo a cidade se afastar, abro a bolsa para artesanar a vida em palavras e finalmente suspiro: o tempo é pioneiro mesmo — arrasta meus laços até que o nó não se desfaça. E eu, cada vez menos sem cetim, corto os que me muito me custam mão de obra para serem desfeitos; hei de reutilizá-los de outra forma.




