Efeito Dominó
O processo de lidar com o adeus e a manutenção das relações
Na noite passada derrubei minha prateleira de taças e eu involuntariamente lembrei de nós quando os estilhaços se estardalhaçaram pelo chão, tão potiagudamente feridos.
A minha epifania veio do ocorrido não por metaforar o senso comum ao dizer que construir relações é um ato frágil; ou que perder seja a apólice de recomeçar. A verdade é que eu só lembro de nós porque todos os dias acordo e lembro de nós — pouco importava se havia ou não taças na prateleira, ou se eu sequer derrubei uma prateleira. Nessa noite, por exemplo, voluntariamente lembrei de nós ao escrever esse texto. Porque ainda que você não quisesse se recordar de mim, eu continuaria sabendo quem você é mesmo que eu não quisesse, porque eu escolhi viver dias com você que eu não trocaria pela moeda de esquecer que eu tive que dizer adeus. Seria cômodo, mas eu escolho ficar com a luz de sol que compartilhamos naquele parque e pelos risos que te dei e tanto me orgulharam. Em algum momento eu te fiz feliz, e esse era meu maior poder quando eu reinava nos meus sentimentos. Mas nos sentimentos de quem estávamos imersos, afinal de contas?
Eu, como escritor, ao fazer isso, rasgo meu estômago na frente de toda uma população que ao se deparar com as entranhas, se pergunta: “quando foi a última vez que ele fez uma ultrassonografia? Tudo parece muito estragado por aqui”. É que o estrago não é a exposição, mas a ânsia de sentir. Se a doença crônica já existe, que mal há em apenas colocá-la para tomar sol? Mesmo que seja em um parque especial e num dia específico, de uma memória enviesada. Enfim, não vem ao caso! Se já tanto me colocaram no alto de um pedestal, hoje quero me permitir apenas cair dele. Foi a Lorde quem disse isso, não eu.
Talvez seja brutal apontar dedos, mas é que viver é como financiar um sonho: todos os dias há de se amortecer os apesares, seja lá de onde havemos de tirar o saldo. Esta é a forma como o pago.
“Tu te tormas eternamente responsável pelo que cativas”. Passei a vida ouvindo essa frase crendo ser apenas de efeito até trombar com ela nos livros munido de sentimentos recentes. Qualquer pessoa é apenas uma pessoa se não existe o processo de conquista e cuidado. É lento, é delicado, é frágil, mas é o necessário. E mesmo as que não valorizaram o cuidado que nós entregamos, continuamos responsáveis pela existência da memória delas no nosso universo, porque dedicamos nosso tempo e energia pra que algo crescesse, mesmo que não tenha crescido da forma como gostaríamos. É por isso que acabamos eternamente presos às memórias, porque acabamos responsáveis por aquilo que decidimos cativar. Cada dedicação nossa merece honras, porque todas as coisas são apenas coisas se não fazem parte do nosso universo. A partir do momento que elas fazem parte, elas são especiais, porque ninguém teria olhado da mesma forma para elas.
Sabe, viver exige muitos requisitos. Inclusive, muitas expectativas. Saber domar as sobras que é o bicho.





teve um dia que acordei e era aniversário de alguém que eu já não conversava mais tinha anos, e fiquei refletindo como essas coisas são doidas. uma data que já não significa nada pra mim, mas ainda estava gravada na minha mente como uma data a se lembrar